Lembranšas
Casas Noturnas dos anos 80
(Inglaterra) - Parte II - Manchester e Liverpool


Haçienda em Manchester

A história do Hacienda começa com as Factory Nights no bar Russel em Manchester. Lá, Tony Wilson podia convidar as bandas que apoiava para tocar e podia criar um ambiente em que as bandas punks e pós-punks pudessem ser ouvidas. Góticos e punks, New Romantics e undergrounds de toda Manchester se reuniam para dançar ao som de David Bowie, Kraftwerk, Lou Reed, Iggy Pop, Roxy Music, Siouxie, etc.


DJ Marcos Vicente em frente Ó entrada do Hašienda

Tony Wilson, que era apresentador de TV e visionário no cenário musical, juntamente com o New Order, perceberam no início da década de 80 que não existia um local para que as bandas que a Factory produzia tocassem, nem onde as músicas que curtiam fossem ouvidas. eles queriam que o lugar fosse diferente, artístico como as casas de Nova Iorque que visitaram. O prédio foi achado; a decoração ficou por conta do arquiteto Ben Kelly e a produção visual de marketing a cargo de Peter Saville.

O problema é que eles não tinham grana para fazer todo esse investimento, que de estimados £100.000,00 acabou ficando em torno de £300.000,00. O dinheiro veio dos direitos autorais do Joy Division (a viúva do Ian Curtis ficou a ver navios nessa) e posteriormente do New Order e das outras bandas como o Happy Mondays, Durutti Column e A Certain Ratio, também produzidas pela Factory. Como o New Order era sócio também da Factory, sua história está intrinsecamente ligada a história da gravadora e, principalmente da casa noturna Haçienda.

"You'll Never see the Hacienda. It doesn't exist. The Hacienda must be built."

O nome foi escolhido por Tony Wilson, com base em um livro que se tornou um clássico underground, The Complete Work of the Situationist International, que dizia que o mundo tinha se tornado um lugar muito chato, desinteressante, e que a única maneira de melhorar isso seria integrando todas as artes, inclusive a arquitetura. O Hacienda seria um lugar onde as pessoas com os mesmos ideais deles pudessem se encontrar, ouvir música, beber e se divertir.

Nesse processo de abertura da casa, segundo Peter Hook em seu livro "The Hacienda", foram cometidos três erros de cara: assinar um contrato de aluguel de 25 anos, tomar empréstimos das empresas fornecedoras de bebidas e depois ficar nas mãos das mesmas pagando muito mais do que o mercado pelas bebidas e assinarem pessoalmente como fiadores desses empréstimos (tanto os membros do NO quanto Tony e Rob Gretton quase perderam seus bens na fase mais difícil do Haçlenda).

A decoração da casa lembrava uma fábrica, com vigas e colunas de aço a mostra e pintadas com aquelas faixas listradas em amarelo e preto que lembram áreas de isolamento. O teto tinha uma área que permitia a entrada de luz solar.

Embora idealizado como uma danceteria, influência das casas noturnas visitadas tanto por Tony, quanto Rob Gretton e os membros do New Order em Nova Iorque: Área, The Loft, Danceteria, Fun House e Roxy, o Haçienda nos primeiros anos após sua inauguração no dia 21 de maio de 1982 era mais como uma casa de shows, e que shows:

Cabaret Voltaire, Culture Club, Teardrop Explodes, Durutti Column, A Certain Ratio, New Order, Bauhaus, Simple Minds, Blancmange, Echo and the Bunnymen, Bow Wow Wow, Yazoo, The Thompson Twins, Tears For Fears, Big Contry, Thomas Dolby e isso só no primeiro ano!!!

O único problema é que a maioria dessas bandas só fariam sucesso bem depois dessas apresentações, assistidas por no máximo 400 pessoas. Era motivo de piada na noite de Manchester; dizia-se que se quisessem ganhar uma graninha era só marcar os shows das bandas escolhidas por Tony para seis meses depois das apresentações no Haçienda.

Além disso, não existia obrigação da banda encher a casa, pois o cachê era pago independente da quantidade de pessoas, diferentemente das outras casas. O backstage também era magnífico, bem decorado, cheio de flores e bebidas e comidas para as bandas iniciantes que tocavam no Haç. Eles não queriam que as bandas passassem pelo que o Joy tinha passado no início da carreira.

Entre as top 20 do primeiro ano estavam no setlist: Torch do Soft Cell, Poison Arrow, do ABC, Temptation do New Order, Situation e Only You do Yazoo, Instinction do Spandau Ballet, Avalon do Roxy Music, etc.

Mas dinheiro que é bom eles não viam nenhum. O Haçienda abria todas as noites e, como a licença permitia somente a entrada de sócios na casa, durante a semana não tinham mais do que 20 pessoas e no final de semana, tirando os shows como do New Order ou Simple Minds, não tinham mais do que 300 pessoas na casa em média.

A sua capacidade era para 2000 pessoas e eles precisavam da lotação máxima somente para cobrir aos gastos. Pagavam muito bem os empregados e as bandas que se apresentavam lá. Além disso, a mesma cerveja que era vendida por 40 pences para as outras casas, eles pagavam £1,00 e não repassavam esse custo para os frequentadores.

O filme "A festa nunca termina" sobre a história da Factory, dedica uma boa parte para contar a história do Haçienda, e como custava ao New Order 10.000 libras por mês para manter um espaço indie onde pudesse apresentar novas bandas alternativas para o cenário mundial. Papel importantíssimo do New Order para a cena indie mundial, criando as bases do que seria o movimento chamado de MadChester (referência ao nome da cidade e ao movimento indie regado a muito ecstasy que levaria o indie ao topo das paradas mundiais mais uma vez).

Os empregados eram conhecidos em toda Manchester, pois sempre pegavam um pacote de cerveja antes de ir para a casa, além de roubarem os equipamentos também. A administração ficava sob responsabilidade de pessoas cuja única credencial necessária era serem conhecidos da turma. Enfim, uma verdadeira bagunça que marcou a história da música mas só deu prejuízo para o New Order. Segundo Peter Hook, todos se sentiam muito bem, era um lugar maravilhoso, mas os únicos que pagavam as próprias bebidas eram eles.

A casa continuou sendo principalmente uma casa de shows até 1985/86, tendo se apresentado as seguintes bandas até o início da década de 90: Section 25, The Smiths, James, Eurythmics, Sisters of Mercy, OMD, Frank Goes to Hollywood, Cocteau Twins, China Crisis, Killing Joke, Run DMC, Nick Cave, Sonic Youth, X-Mal Deutchland, Stone Roses, Jesus and Mary Chain, Erasure, Pink Industry, Art of Noise, Gene Loves Jezebel, Mighty Lemon Drops, Marc Almond, Everything but the Girl, Blur, Jimmy Somerville, The Farm, Dee Lite, Primal Scream, Happy Mondays, até mesmo um show da Madonna, no comecinho de sua carreira, em sua primeira apresentação na Inglaterra.


DJ Marcos Vicente ao lado do DJ do Haçienda durante os anos 80

Já em 1986 as Nude Nights com Mike Pickering nas pickups se tornaram predominantes. Chamavam-se Nude pois não tinham apresentação de banda nenhuma.

No início de 1987, já havia três festas constantes, sem música ao vivo: na quinta-feira a Temperance Club, do DJ David Haslam, que foi a noite que deu origem ao Madchester; nas sextas-feiras, a Nude, dos DJs Mike Pickering e Prendergast, preparando o público para a House Music; e aos sábados, era a Wide, do DJ Dean Johnson, que tinha no nome a política musical da casa: ampla.

Nessa época, o New Order viajou para Ibiza para a gravação do Technique, e nessa viagem, embora tenham gravado somente duas músicas, uma delas a primeira Acid House da banda, Fine Time, entraram em contato com o novo som e a nova vibe que tomava conta das casas noturnas de Ibiza, embaladas pelo House e pelo Ecstazy, nas raves eternas do que dariam o início ao segundo Verão do Amor.

Em 1988 o Acid House já tomava conta da Inglaterra. Paul Oakenfold dava início a festa Future, na casa Heaven em Charing Cross, Londres, precedida pl. afasta Shoom que utilizava em seus flyers o smile amarelinho, eternizado como símbolo do Acid House. Em abril de 1988 o tema de S Express entrava nas paradas inglesas.

No Haçienda, a explosão da House Music se personificava em festas lotadas, com filas que começavam uma hora antes da abertura da casa e permaneciam enormes ao longo da noite. Dentro, os frequentadores livres de qualquer dress code, usando tênis e calças largas, se jogavam na pista ao som do house, comemorando as viradas dos DJs, embalados pela música e pelo ecstasy.

"No Haçienda era como se uma geração inteira respirasse aliviada, tendo sido liberta das pressões do cotidiano, da luta diária. As calças baggy tiravam a sexualidade de todo o ambiente. O calor de 200 pessoas dançando juntas, até mesmo nos bares e nas filas para o banheiro, deixavam todo mundo acabado. Todos pareciam um lixo. Se você se apoiasse nas grades do mezanino sobre a pista, sua mão ficava encharcada de suor humano condensado. Ao cessar a música e abrirem as portas rapidamente o ambiente gelava de tão frio. As pessoas iam saindo como um rebanho, de volta a realidade opressora. Até a próxima sexta-feira. Todo esse clima, essa loucura, era muito mais viciaste que a droga em si. As pessoas simplesmente não queria que a festa terminasse nunca" John McCready - DJ e jornalista em entrevista para o "the Observer" em 1988.

"Você quase se sentia perdendo alguma coisa por estar tocando, preso na cabine de DJ, você queria era estar na pista" Jon DaSilva

"Eu estava tocando numa noite no Haç, quando uma garota entrou na cabine e começou a tirar a roupa. Ela estava nua e começou a tirar as minhas calças. Eu era esperto o suficiente para saber que era efeito do ecstasy..." Dave Haslam

Em 89, o Haçienda já era o centro do furacão do Acid House, com as festas Nude, Wide, Temperance e a mais nova festa, House Nation. Esse foi também o ano do início da Indie-dance, com remexes do Happy Mondays e do Stone Roses chegando ao Top of The Pops. Todos os olhares se voltavam para Manchester. Era lá que todos queriam estar. Era lá que tudo acontecia. E o Haçienda estava no seu auge. Os DJs que fizeram história no começo do culto ao DJ no Haçienda foram, além dos já citados, Frankie Knuckles, Colin Favor, Sasha, Graeme Park, Dave Booth, entre outros.

Poderia ter sido o momento mais lucrativo da história da casa, porém as pessoas não consumiam nada dos bares, somente água, e por princípios eles não vendiam água, só bebidas alcoólicas. Quem realmente lucrava horrores com as noites lotadas do Haç eram os traficantes de drogas.

Porém, logo as gangues começaram a tomar conta da casa e a violência se tornava lugar comum. A casa chegou a ficar fechada um bom tempo, por ordem da justiça, reabrindo seis meses depois já sem a magia dos anos de 88 e 89.

Em 1997, foi novamente fechada, e eles não tinham dinheiro para reabri-la ou quitar os débitos existentes. Então, em maio de 97, logo após a festa de aniversário de 15 anos da casa, com lotação de mais de 2500 pessoas, o Haçienda foi fechado. Foi lançada nessa noite umas coletânea com três CDs, chamada de "Viva Hacienda" que se tornou um item extremamente procurado pelos colecionadores.


DJ Marcos Vicente em frente ao Eric's Club na época reforma da fachada, pouco após a reabertura oficial da casa em 2011.

ERIC'S Club em Liverpool

O Eric's foi inaugurado em 1976, por Roger Eagle e Ken Testi, na famosa Matthew Street em Liverpool, bem em frente ao Cavern Club, casa dos Beatles nos anos 60. O nome da casa, Eric's, era como um antídoto para as casas existentes, como Tiffany's ou Samantha's que se prendiam ainda à dance music dos anos 70.

 

Já naquela época o Eric's se tornava famoso por abrir suas portas para apresentações das bandas do punk e pós-punk do cenário alternativo tanto de Liverpool quanto de outros cantos da Inglaterra como do mundo, a exemplo de: The Buzzcocks, Elvis Costello, The Clash, Sex Pistols, Siouxie and The Banshees, The Stranglers, Ultravox, XTC, etc. Foi também palco de shows de bandas que fizeram muito sucesso posteriormente como U2, New Order, OMD e do Mick Hucknall do Simply Red ainda durante sua carreira solo.

O Eric's Club foi o berço de toda a geração anos 80 de Liverpool. Lá começaram OMD (Orchestral Manouevres in the Dark) a banda mais criativa de Liverpool na década de 80 e líder de todo esse movimento de nova invasão da música de Liverpool no cenário mundial (reproduzindo o feito dos Beatles nos 60), Echo & the Bunnymen, Pink Industry, Dead or Alive, Frankie Goes to Hollywood, todas essas bandas ligadas intimamente na época do Eric's, quando ao menos um membro de cada uma dessas bandas participava do Big in Japan, banda proto-technopop, super experimental, que tem apenas alguns registros em demo-tapes, no entando, todos os membros da banda formaram ou produziram bandas de suma importância para a música dos anos 80, além dessas já citadas, Bill Drumond pro exemplo produziu o Echo, depois criou suas próprias bandas que viraram lendas do Acid House, como The Timelords e o KLF já no finalzinho dos anos 80.


Siouxsie dentro do Eric's Club

A casa é referenciada inclusive no álbum de estréia do Yazoo, banda de Vince Clarke e Alison Moyet. O nome do álbum? Upstairs at Eric's, fazendo uma referência ao piso de entrada da casa, uma vez que o Eric's era um enorme porão em plena Matthew Street, onde dezenas de bandas começaram. Foi lá que Tony Wilson (dono da Factory Records e sócio do Haçienda junto com o New Order) viu pela primeira vez o OMD se apresentando, e os convidou para lançar seu single de estréia Electricity pela Factory Records. Essas duas casas são intimamente ligadas por serem casas criadas exatamente para apresentar do underground, bandas indies

Uma das coisas mais legais era que no Eric's, assim como no Haçienda, só podiam entrar sócios de carteirinha (daí o termo posteriormente usado para frequentadores de baladas e afins) e nas matinês, até mesmo menores de 18 anos podiam entrar e curtir boa música num ambiente extremamente estimulante artisticamente. Muitos talentos foram incentivados e descobertos nós porões do Eric's.
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Próxima parada: Birmingham e Essex!


Cris Maggio