Lembranšas
Casas Noturnas dos anos 80 - Parte IV - Zona Norte

Zoom – A clássica danceteria, que ficava no coração de Santana, na Rua Dr. Zuquim nº 311 e chegou a ser eleita como a melhor casa noturna da zona norte nos anos 80. Foi fundada pelo empresário Chico Recarey e bombava todos os finais de semana, não ficando atrás de nenhuma balada da cidade. O que poucos sabem é que a ZOOM surgiu primeiro em Santos e depois o Chico Recarey a trouxe para a capital.

Muito embalada pelo auge do new wave e rock nacional, se destacou bastante também na época do flash house.

As tradicionais domingueiras eram sempre lotadas e foram marcadas pela abertura com a música clássica Tchaikovsky 1812.

Clube dos Oficiais da Polícia Militar – Um dos lugares mais diferentes para rolar as domingueiras, pois era dentro de uma área militar reservada, na região do Horto Florestal/Cantareira, bem protegida, onde só funcionários tinham acesso, mas aos domingos a farra comia solta num cenário de muito verde e adolescentes bonitos, o que tornava maravilhoso esperar a hora do momento bailinho, com uma seleção de lentas pra lá de emocionante.

Venus – Outro lugar maravilhoso para curtir as domingueiras, rolava dentro do Clube da Aeronáutica, em Santana. Um dos melhores lugares pra se ficar era perto da porta de vidro, onde era possível ver o estacionamento. A casa abria rigorosamente ás 18 horas, nos dias de verão era possível ver o pessoal ainda curtindo o clube, pois demorava mais pra escurecer. Recebia muitos atores como atração praticamente todo domingo, o que levava as meninas ao delírio.. pelo que me recordo uma das músicas mais tocadas era “Go”, do Tones on Tail, boas lembranças..

California Dreams

Não só nos dias de hoje, mas também nos anos 80, sempre existiram “estilos” e “tribos” diferentes. Uma casa noturna conseguir agradar todo o público é uma coisa, tentar agradar gregos, troianos, beltranos e sicranos era uma tarefa que a Danceteria California Dreams conseguiu fazer nos anos 80! Localizada na Avenida Cruzeiro do Sul, 3320 no bairro de Santana. Eu tive o prazer de conhecer esta casa inclusive na noite de sua inauguração. O Californa conseguiu unir na Zona Norte públicos diferentes, pois era muito fácil achar turmas que curtiam flash house, pessoas que gostavam mais de um (lado B) das bandas que faziam sucesso, turmas de surfistas, skatistas, e no final dos anos 80 alguns darks também circulavam e dançavam na pista.

Muitas músicas podem vir em minha memória ao lembrar-se do California Dreams, mas se você perguntar qual era a principal, sem dúvida responderei: “A Flock Of Seagulls - Transfer Affection”. Essa música além de ser muito bonita, era praticamente o hino do California que tocava não só nas noites e também nas matinês. Lógico que também existia seu valor comercial essa música, uma vez que a danceteria levava não só o nome, o patrocínio e as cores do cigarro California, sendo esta música utilizada no comercial das TV deste produto. A casa também anunciava o fim da balada com sua última música: De Repente, Califórnia de Lulu Santos.

Por falar em nacionais, era muito comum na época pagarmos uma simples matinê e no meio da balada assistir shows de Bandas Nacionais como: Utraje a Rigor, Camisa de Vênus, Tókio, Legião, Capital, IRA, etc. Época boa em poder prestigiar e assistir o show de uma Banda Nacional por um preço justo ao invés que temos nos dias de hoje em pagar os “tufos”, a desorganização de ingressos, filas, estacionamentos, etc. Por sorte ainda temos algumas Bandas e estabelecimentos que pensam no bolso dos fãs, mas são poucas.

Outras músicas ecoavam como hino, grito de guerra, entre outras coisas que sincronizavam o público na hora que tocavam: “Tones on Tail – Go!” era uma dessas, além das mudanças de letra que fazíamos em várias casas noturnas com músicas nacionais que não citarei por aqui devido alguns palavrões. Rsrs Músicas do “B-52’s” e “DEVO” eram bem recebidas no California, tanto que o pessoal fazia danças diferentes não só ao estilo New Wave, mas alguns também faziam loucuras de segurar na perna do outro e rodava a pessoa como se fosse arremessá-la, tinha também a turma dos “passinhos” em lugares específicos da casa.

Outro detalhe que não posso deixar de citar era um dos grandes diferencias do California, a iluminação! Era simplesmente fantástica com aparelhos que pareciam naves espaciais e algumas delas desciam quase até o chão. Sempre teve uma equipe grande de funcionários que cuidavam do som e principalmente da iluminação. Por várias vezes a galera gritava e aplaudia para o operador de iluminação que fica próximo a cabine dos DJs. Outro aspecto interessante é que durante a balada, você podia comprar sua entrada para o próximo sábado ou matinê, as pessoas que compravam antecipados não pegavam fila, funcionava parecido às compras de ingressos antecipados em shows.

Mesmo sendo uma casa da Zona Norte, seu público era variado de várias regiões, devido ao fácil acesso por ter um terminal de ônibus dois minutos de onde era o local e a estação de metrô. O Califa (como era chamado pelos freqüentadores assíduos), não tinha nem choro e nem vela, nas músicas que agitavam sua pista, pois a grande maioria conhecia todos os ritmos e sabiam que por lá freqüentavam as mais diversas “tribos”. Era normal você ouvir na mesma noite M.A.R.R.S e Léo Jaime, B-52’s e Garotos Podres, Wax e The Cure. Lógico que com um set separado de acordo com o horário, mas o público era conhecedor das músicas e principalmente dos estilos. Ah...e sempre tinha aqueles momentos de músicas lentas!

Especiais que rolavam por lá, era muito divertido e o pessoal curtia as noites do “Vermelho e Branco”, noite da “Mini Saia”, noite do “Xadrez”, Especial da “V.A.S.P” (Vagabundos Anônimos Sustentados pelos Pais) matinê “C.A.L.I.F.A", se seu nome começava por essas letras você tinha desconto, entre outras coisas interessantes não só nas noites, mas também nas matinês.

California Dreams não foi uma danceteria tão famosa e com um espaço físico tão grande quanto as outras na época, durou entre 1986 até o final de 1989 que depois abriram outra casa no mesmo lugar com o nome de Sunset, mas não “vingou” tanto quanto o Califa.

A danceteria California Dreams, pode não ter sido o supra-sumo das casas noturnas nos anos que algumas infelizmente se destacavam pela “modinha” de acolher somente o público que usava calças “santro-peito” e sapato com “sola de trator”, deixando de lado o público de tênis “Mad Rats”, calças “OP”, camisão da “Fico”, calças jeans rasgadas e coturnos, entre outros estilos. Mas talvez por essa e mais outras que ela foi tão especial para aqueles que tiveram o prazer de conhecer. Um local onde você podia estar com uma camisa de surf/skate da marca californiana “Stussy” e dançar ao lado da pessoa com camiseta dos Garotos Podres ou do A-Ha. Mulheres de mini saia e blusa laranja ou verde limão ao lado de mulheres darks.

Talvez tenha sido até sem querer, mas o California Dreams conseguiu seguir o estilo diferenciado das pessoas que existiram e ainda existem em algumas ruas e praças de Venice Beach – California e Sana Monica, onde se encontram as mais variadas tribos. California Dreams foi isso, deu a oportunidade de viver parte dos sonhos californianos com vários estilos e as boas músicas dos anos 80. E mesmo que ao lembrar-se desse local enquanto eu e centenas de pessoas gritávamos ao refrão: “Ya..Ya..Ya..Yaaaa..Yaaaaa de Tones on Tail”, é impossível eu não deixar de ouvir novamente “A Flock Of Seagulls - Transfer Affection” ao terminar este parágrafo.

 

Playboy Music Hall

Localizada na Freguesia do Ó na Avenida Itaberaba, 1757 a Playboy era bastante freqüentada dos moradores da região da Av. Itaberaba e bairros vizinhos. Teve grande sucesso principalmente entre os fãs de Flash House e quando Noel, Information Society e Company B estouravam nas pistas das danceterias dos anos 80. Um destaque para esta casa foi a apresentação da banda synthpop nacional Tek Noir, muito influenciada por Depeche Mode, Pet Shop Boys, New Order e Front 242.

Carlos Simões e Vanderlei Schiavolin