Notorious

Echo & The Bunnymen - Echo & The Bunnymen


Contra Capa

Escrever sobre o álbum ECHO & THE BUNNYMEN de 1987 me traz grandes lembranças de quanto ainda amo e quanto ouvi este vinil que comprei em 1988.

Lado A da Versão Vinil

O verso inicial de “All My Life”’ diz bastante como a banda sentia esse álbum: "Como o tempo nos mudou / Certo e agora incerto".

E o futuro do Echo & The Bunnymen parecia mesmo incerto depois deste álbum, que divide os fãs da banda, para alguns é um dos melhores da sua carreira, onde a banda conseguiu soar mais dançante e comercial, sem perder a identidade básica do seu som lapidado nos álbuns anteriores.

Para alguns fãs mais radicais, o álbum demonstra um início de decadência criativa da banda, soando mais comercial e não conseguindo manter o padrão de excelência dos álbuns anteriores.

O que sempre fez diferença no som do Echo comparado aos outros de sua geração foi a paixão pelo lado escuro dos anos 60 – ou seja, Velvet Underground e The Doors - e também seu lado mais melódico e ensolarado – The Byrds e Love. Mas seja como for, o som dos Bunnymen dá a medida exata daquilo que separa o psicodelismo original de sua versão anos 80: dá pra dançar! É rigorosamente, com perdão pela expressão, um psicodelismo pós-punk

Com uma voz a lá Jim Morrison, boca de Mick Jagger, nascido em Liverpool, terra dos Beatles. Fisicamente, geograficamente e musicalmente, o vocalista, letrista e guitarrista Ian McCulloch encarnava um caldeirão de influências dos anos 60 e 70, juntamente com a guitarra de Will Sargeant, o baixo de Les Pattinson e a bateria de Pete de Freitas. No imaginário dos anos 80, não dá para excluir do chip de memória de cada pessoa que foi criança/adolescente naqueles tempos a “coletânea” de penteados presentes na capa deste disco. Cabelos a parte, o Echo é uma banda fundamental para entender o que foram os anos 80 e este álbum homônimo de 1987, além de síntese da época (fotos em preto-e-branco de Anton Corbijn), que também é conhecido por seus trabalhos em fotos e vídeos com o Depeche Mode, U2 e Joy Division, só para ficar em três ícones, arranjos com bastante teclados..; é, sem dúvida, o topo na carreira do grupo, apesar dos resmungos de McCulloch, que afirma não gostar do álbum.

Infelizmente, o sucesso de crítica e público do álbum anterior “Ocean Rain” (1984) não cicatrizou as feridas internas da banda, que voltou a se desentender até que o baterista Pete de Freitas – afundado nas drogas – pedisse as contas em dezembro de 1985. A banda chegou a testar outros substitutos em shows e sessões de gravações com Gil Norton na produção nos meses seguintes em 1986, mas o resultado insatisfatório (muito por Ian McCulloch estar constantemente bêbado nas gravações) não foi levado à frente.

No início de 1987, já com o produtor Laurie Latham (que havia produzido o ótimo single “Bring On The Dancing Horses”, em 1985 para a coletânea “Songs to Learn And Sing”) definido e com Pete de Freitas readmitido, começaram as gravações – conturbadas.

Lançado em Julho de 1987, “Echo & The Bunnymen” (também conhecido como “The Game”) mostra o quão a banda estava perdida no momento. Apesar de conter um dos grandes hits do quarteto, a ótima “Lips Like Sugar”, falta ao álbum a agressividade do início da carreira e a inspiração melódica de “Ocean Rain” e sobram faixas boas, comparadas à outras bandas, mas menores perto do que a banda já havia produzido.

Se você que está lendo esse texto agora tiver que escolher um disco para começar a ouvir e conhecer o Echo, escolha este. Os motivos são vários. Além dos expostos acima, esse é último álbum com a formação completa da banda (o baterista Pete de Freitas morre em 1989 num acidente de moto), a voz e a inspiração de Ian McCulloch nunca mais seriam as mesmas. Este é também o mais íntegro conjunto de canções da banda, não há margem para hesitação em nenhuma faixa e as letras são muito inspiradas.

Vamos a um breve comentário das faixas:


Lado B da Versão Vinil
The Game - O álbum abre com a ótima “The Game”, cujo videoclipe foi gravado no Brasil, no Rio, e gerou protestos de nacionalistas babacas por ter sido gravado em parte em botecos e porque Ian imitava o gesto de Didi quando ele se dava bem, que estava em moda na época. A letra é linda, pra gente se deixar levar pelo jogo, como deixa bem claro nesses versos: “A Terra é um mundo / O mundo é uma bola / Uma bola num jogo / Sem nenhuma regra / E exatamente como eu imaginei / Na beleza de tudo / Você vai e deixa cair / E quebra e cai / E é uma coisa melhor / Que nós fazemos agora / Esquecendo de tudo / Dos porquês e como / Enquanto você se recorda / Das coisas que você sente falta / Você não estará pronta para / Beijar... adeus”
FICHA

"Echo & The Bunnymen - Echo & The Bunnymen "
Data de Lançamento:
1987
Faixas: 11 faixas

Lado A
01.The Game 3:48
02.Over You 4:01
03.Bedbugs And Ballyhoo 3:27
04.All In Your Mind 4:32
05.Bombers Bay 4:19

Lado B
01.Lips Like Sugar 4:51
02.Lost And Found 3:37
03.New Direction 4:45
04.Blue Blue Ocean 5:08
05.Satellite 3:03
06.All My Life 4:08

Produção: Laurie Latham
Engenheiro de Som: Paul Gomersall, Stuart Barry
Masterizado por: Brian Gardner
Mixado por: Bruce Lampcov
Fotografia: Anton Corbijn

Gravadora : Warner-Pioneer Corporation

Over You – É uma música romântica e otimista, de como sempre precisamos de alguém pra confiar e amar e levantar nossa moral, como deixa bem claro esses versos: “Feeling good again / always hoped I would / never believed / that I ever could / Feeling blue again / never wanted to / Under the weather / And it's over you”

Bedbugs And Ballyhoo - Um clássico do Echo, “Bedbugs And Ballyhoo”, é uma música que tem uma introdução e condução de bateria fantástica, uma linha de baixo marcante e teclados do mestre Ray Manzarek, do The Doors, uma parceria de adoração e respeito que se repetiu quando o Echo gravou “People Are Strange” e o refrão grudento que saímos cantando: “Down on your knees again /saying please again, no, no, no...”.

All In Your Mind - Música com bom solo de guitarra, teclados, e pegada dançante que muita gente acha que lembra um pouco a pegada do B’52’s.

Bombers Bay – Pra fechar o lado A do vinil, nada como diminuir a adrenalina com esta belíssima balada pop pra curtir em casa e viajar no som e na letra, pois Deus é um milagre, perdido em círculos e vamos viajando pra Bombers Bay: “God's one miracle / Lost in circles / On the march Berlim to Bombers Bay / Traveling dark / On the roads to Mandalay”.

Lips Like Sugar – O lado B começa com sem dúvida, um hino e maior sucesso do álbum, cuja leitura da letra na Bizz Letras Traduzidas me fez querer conhecer Echo e também Velvet Underground, pois cita “I´ll Be Your Mirror”: “Ela será o meu espelho / Reflete o que eu sou / Um perdedor ou um vencedor / O rei do Sião / E o meu gêmeo siamês / Sozinho no rio / Beijos no espelho, beijos no espelho / Lábios como açúcar / Beijos de açúcar / Lábios como açúcar / Beijos de açúcar”. A introdução é completamente inesquecível, a guitarra dedilhada, a bateria entrando e o solo inconfundível. Quando essa música toca numa pista de dança é hora de se jogar, se tocar o extended mix 12’’ da época, sai de baixo. Lembro que teve dois videoclipes, preto e branco e uma versão mais difícil de ver, tinha a banda com globos terrestres na cabeça.

Lost and Found – E a banda vai se perdendo e se achando nesse som, que sinto uma certa influência das músicas menos eletrônicas e mais guitar do New Order. Não é um palpite sem fundamento. No seu álbum solo Candleland (1989) Ian McCulloch tentou ser soar como o New Order na faixa “Faith And Healing”.

New Direction – Bom trabalho das guitarras de Will e Ian, mostrando que o Echo poderia tentar uma nova direção, explorar sonoridades mais dançantes sem perder sua identidade já estabelecida.

Blue Blue Ocean – Na mesma linha de Lost And Found, ótimo piano de Manzarek e devido clima psicodélico e refrão um tanto repetitivo, mas boa pra ouvir em casa.

Satellite – Um som que sem dúvida, influenciou as bandas inglesas da virada dos anos 80 pros 90 como Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets, onde temos as influências de rock psicodélico sem perder a batida dançante.

All My Life - O álbum fecha com “All My Life”, uma das baladas mais sinceras já composta por Ian McCulloch. Foi produzida por Gil Norton [produtor de Doolittle (1989) dos Pixies, outro clássico] e a banda. Mais uma vez, Ian afirma novamente que Deus é um milagre que movesse em círculos, a circularidade da vida, onde rimos e choramos, tudo se move, uma música confessional como “In My Life” dos Beatles, um trecho: Songs for life's lost lovers / bitter sweet their healing / Their prayers prayed under covers / need not kneeling / God's one miracle / moves in circles / All my all my life / revolves around /laughter and crying / as my life turns / round and round

O Echo & The Bunnymen encerrou suas atividades com a formação original neste álbum, Ian McCulloch partiu pra carreira solo já em 1989, até a volta da banda reformada como trio em 1997 com o álbum “Evergreen” e depois com a dupla Ian e Will nos álbuns seguintes. Mas o trabalho do grupo nos anos 80 faz habitarem o Olimpo das melhores bandas inglesas daquele período, junto com The Smiths, The Cure e New Order.

Marcello Blum